14 de março de 2009

Sem Consolação

Andar na Paulista naquele dia azul com nuvens brancas e brisa macia, ouvindo o barulho das folhas do parque Trianon e cantarolando "Chega de Saudade" poderia ser mais uma das infinitas cenas em que estava acompanhada por violão, amigos e carteira vazia. Violão talvez não, mas amigos e carteira vazia com certeza.

Mas dessa vez os pés que pisavam a nova calçada da Menina Paulista eram só dois e não no mínimo quatro, como antes. A canção não tinha mais várias vozes descoordenadas, era um só e envergonhado tom que não tinha como antes coragem pra ecoar do peito aberto para os pilares dos imensos edifícios.

Passa o Conjunto Nacional, passa o Center 3, passa o parque, passa o Masp, passa a feirinha, passa o prédio da Fiesp, passa a escadaria da Cásper, passa a Fnac, passa o Itaú, passa o Sesc. E durante o trajeto em linha reta só que não passou reto pela menina foi a saudade, essa menina mais danada que a Menina e que a menina.

10 de março de 2009

Fome de Leitura

Minha professora de Didática I, Denice Catani, da USP, nos pediu uma série de pequenos textos sobre nossa formação. De acordo com ela, quem quer interferir na formação alheia deve, no mínimo, refletir sobre a sua própria.

Com base no capítulo Memória de Livros do livro Um Brasileiro em Berlim , de João Ubaldo Ribeiro, o primeiro texto dessa série deveria retratar nossas relações com a leitura: o aprendizado da leitura, pessoas que nos incentivaram, o quanto gostamos de ler, etc.

O resultado está aí!
Divirtam-se! (E não reparem em repetições de palavras e outras cositas desse gênero. Aqui vale mais o conteúdo que a forma do texto).



Desde que me reconheço como um ser pensante, sei ler. Fui alfabetizada pelo método montessoriano aos quatro anos de idade. Mas antes de muitos livrinhos infantis recomendados pela escola e por minha mãe, eu já tinha uma profunda relação com a leitura: de acordo com mamãe, eu já devorava (literalmente) revistas aos oito meses de idade. Minha fome também refletiu na hora de pronunciar minha primeira palavra, “pão”.

Com um ano e oito meses entrei na Escola Irmã Catarina, na época localizada na rua Rodrigo Cláudio, na Aclimação. O método Montessori criou um ambiente propício para estímulos à leitura. Desde muito pequenos tínhamos contato com as letras do alfabeto e muito material era colocado à nossa disposição. Aos quatro anos, estava alfabetizada.

Uma série de livros infantis viviam entrando e saindo de casa. Minha mãe, que sempre leu muito, incentivava não só a leitura, como a cultura num todo. Ouvíamos e aprendíamos música, íamos ao teatro e ao cinema quase todo fim de semana (o passeio também incluía horas na parte infantil das livrarias dos shoppings). Por volta dos meus sete anos de idade, o gosto por teatro me levou a um passeio com a escola para o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Ganhei também um livro da coleção.

Aos nove anos, ganhei de uma grande amiga da família o meu primeiro “grande” livro: Harry Potter e a Pedra Filosofal. Eu levava para a escola e lia durante todos os intervalos. O livro de cento e poucas páginas me acompanhou por um bom tempo. Eu marcava as páginas com bolinhas antes dos parágrafos que seriam começados.

Mas apesar de Potter ter me influenciado, a marca na minha história com a leitura veio definitivamente na quarta-série. Tia Cleide, professora incrível, nos passava diversos livros e, além disso, incentivava o debate sobre eles e nossa redação sobre os temas. A partir daí, passei não só a ler como a escrever ficção em poucos parágrafos. O gosto pela poesia também veio graças à Tia Cleide.

Enquanto isso, meu falecido Tio (-avô) Luigi insistia que eu lesse literatura internacional e seus grandes autores, mas não me dava muitos livros. Um dos poucos foi O Pequeno Príncipe. Quando o li pela primeira vez, não entendi nada. Outro livro que lembro ter me sido dado por meu tio foi O Continente 1, parte de O Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo. O primeiro grande romance brasileiro que li (com 14 anos).

Durante todo o fundamental I tive “aulas de leitura” com a Tia Lia, atualmente aposentada. Ela nos passava exercícios com textos, basicamente de interpretação, e exigia também redações freqüentemente. Também pedia pesquisas (lembro-me bem de uma sobre o Pantanal). Talvez daí tenha saído o meu interesse pela área de comunicação e jornalismo.

No ginásio, minha professora de Português, Tia Rosa, pedia desde os livros da coleção Vagalume até versões adaptadas de Machado de Assis, Cervantes, entre outros. Li muitos livros do Pedro Bandeira e muitas crônicas. Tia Rosa me ensinou tudo que sei hoje sobre gramática. O gosto pela língua portuguesa e por como ela funcionava impulsionou minha leitura.

Desde então, gosto muito de ler. Infelizmente, o colegial me tirou tempo para as leituras extra-escolares e fiquei um bom período parada. (Para se ter uma idéia, neste janeiro de 2009 li 5 livros). Atualmente, estou com minhas atenções voltadas para os textos acadêmicos das duas graduações que estou fazendo (Pedagogia aqui na USP e Jornalismo na Cásper Líbero), mas espero sempre que puder continuar meus caminhos no campo da literatura.

25 de fevereiro de 2009

Carnaval

A multidão que acompanhava o bloco descia as íngremes ladeiras de Ouro Preto. Alalaô, ouô, ouô. O calor não era só por conta do sol forte. A alegria fazia a temperatura dos paralelepípedos subir.

Entre sombrinhas e cantos de marchinhas, faixas e fitas, confetes e serpentinas, avistei um pierrot a procurar sua colombina. Ia e voltava por entre multidão que passava desfilando, sendo observada pelas varandas das casinhas coloridas.

O bloco que agora seguia não era mais o primeiro, a marchinha agora era frevo e o pierrot continuava sua busca em meio aos foliões que pulavam ao som da banda. Arrastava-se contra a corrente, tentava permanecer no mesmo lugar.

As cornetas de frevo agora eram pandeiros de samba. E nada da colombina, agora porta-bandeira, dar sinal para seu desolado pierrot. Perdido entre os ritmos, as cores e seus amores, era um mestre-sala sem ter a quem cortejar, sem bandeira a proteger.

Agora no fim da ladeira, o axé que contagiava a população não atingia nosso mestre-pierrot. Entre abadás, continuava com sua humilde fantasia a procurar sua porta-columbina. Era levado pela multidão envolta no cordão.

Depois de quatro blocos, agora era Dia de Cinzas. O pobre folião sem sua companhia, sem o complemento de sua fantasia, sentado na calçada a olhar as máscaras que caíram durante os quatro dias de festa. Na ladeira agora só sobrou o confete entre os paralelepípedos e as serpentinas penduradas nas varandas.

Fim de carnaval, fim da fantasia.

18 de fevereiro de 2009

Aviso aos navegantes

Queridos (poucos) leitores.
Como alguns de vocês já sabem, estou fazendo Jornalismo na Cásper Líbero e vários professores meus andam pedindo trabalhos e etc. Gostaria de comunicá-los que vou precisar (e MUITO) da ajuda de vocês. E então vocês me perguntam: como faremos isso?E eu lhes digo que é simples, meus caríssimos. Eu vou postar aqui os meus trabalhos. Além da nota e dos comentários do professor, os comentários de vocês vão com certeza me ajudar. A opinião de vocês é muito importante pra mim.Então a partir de hoje, minhas pequenas narrativas e devaneios serão acompanhados de resenhas, reportagens, entrevistas que meus professores vão pedir.

Conto com vocês! :D
PS: Tá vendo que ali do lado tem um link chamado "Clube de Cinema"? Pois é! Eu faço parte da equipe de lá e quando eu postar algo por lá aviso por aqui também. Vale a pena visitar!

8 de fevereiro de 2009

Ska

A vida não é filme. É justamente por isso que talvez eu tenha deixado passar tantas cenas de causar inveja a diretores de comédias românticas. Cenários perfeitos, fotografia naturalmente ajustada e o melhor dos diálogos: o silêncio. Em qualquer longa seriam cenas perfeitas pras melhores declarações, pros beijos mais românticos, pros finais (ou começos) mais felizes.

Mas a vida continua não sendo filme, apesar disso. Porque os personagens desses cenários interpretam o texto não de acordo com o meu roteiro, mas com seus próprios. É por isso que a vida não é filme. Porque em filme os fantasmas vão embora, a mocinha é decidida e segura e o mocinho diz e faz sempre o que a mocinha quer ouvir.

*

Obs: Mesmo não sendo filme, vida tem trilha sonora! ;)

5 de fevereiro de 2009

FE-USP 2009

O céu nunca esteve tão azul, as folhas das árvores tão verdes, o sol tão brilhante. De uma hora pra outra, nada mais era monocromático. O raro sabor da plena felicidade fazia sua boca sorrir sem motivo. Tudo parecia ao seu alcance, o topo dos prédios, as nuvens do céu. Restava a ela aproveitar, antes que tudo voltasse à rotina.



Nenhum valor artístico mesmo. Só pra constar. ;)

1 de fevereiro de 2009

Cabo-de-guerra

Ela estava lá, de novo, contemplando aquele mesmo nascer do sol carregado de nuvens cinzas entre manchas coloridas no céu. Sentada na grama, com um pouco de frio, segurando as próprias pernas junto ao corpo cansado. Outro corpo exausto sentou ao seu lado e a fitou por alguns segundos. Ela retribuiu com um sorriso de canto de boca. Ainda em torno dos joelhos, suas mãos se ocupavam uma com a outra, assim como sua boca se ocupava com devaneios que buscavam romper qualquer instante de silêncio em que se diriam mais coisas que em todas aquelas frases. Ambos sabiam disso. Agora, ignorava o braço que pousava em seus ombros e acarinhava seu braço. Insegurança, amparo, receio, vontade. Um cabo-de-guerra que ela venceu se levantando com uma desculpa esfarrapada como todas as coisas ditas pra rasgar o silêncio. Algumas palavras estilo assunto de elevador, uma ou outra gentileza, um abraço e palavras ao pé do ouvido encerraram o começo daquele novo dia.

*

Bem, já é domingo e, portanto, fim da greve. Divirtam-se.
Ah, título tosco. Aceito sugestões.

28 de janeiro de 2009

Greve

Em protesto contra a Eletropaulo que ignorou totalmente aqueles que preferem realizar suas atividades durante o período da madrugada cortando a energia do meu bairro hoje por volta de 1 hora e 30 minutos da manhã deixarei o blog sem textos novos até semana que vem. No instante em que a luz foi cortada, eu escrevia um post que estava ficando uma gracinha. Nem sei se está salvo nos rascunhos, mas agora também não quero postar. u_ú

Sem mais.

21 de janeiro de 2009

O café com leite frio da minha caneca logo vai me obrigar a levantar daqui e a parar de olhar pro telefone, afinal ela não vai andar sozinha até a mesa. Apesar de já serem 3 horas da madrugada a maldita insônia que me persegue não se convence de que você não vai me ligar nem às 3 da manhã nem nunca. Com certeza se eu estivesse falando com você agora você me falaria pra parar de jogar a culpa na coitada da insônia, mas tudo que eu ouço são os poucos carros nas ruas, o vento balançando as plantas no quintal, o computador que, ainda ligado, passa fotos aleatórias na tela: a gente na praia, na minha casa, na rua, na chuva, na fazenda e numa casinha de sapê. Na verdade, nenhuma delas só nossa, todas tem mais gente. Na verdade, algumas nem tem o seu rosto, só são de ocasiões que você também estava presente, mas é suficiente pra minha cabeça entrar numa onda de saudades de coisas que não aconteceram. Ah!
Um novo ruído, mas nada de telefone: só a caneca caindo no chão, querendo voltar sozinha pra mesa. Ok, vou levantar, a caneca vão vai chegar ao cúmulo de limpar a bagunça sozinha.

*

Texto começado num dia e terminado noutro. Fruto de algumas associações livres.

13 de janeiro de 2009

Diário de Viagem

Seguinte... Eu fui viajar com a minha família e o tédio era tanto que li três livros (Muito Longe de Casa, Ishmael Beah; Clarissa, Érico Veríssimo; Budapeste, Chico Buarque) em 4 dias. Então, como não havia mais nada pra ler, resolvi escrever, como se fosse um diário. Mas não completei todos os dias porque me falhava a memória e eu consegui algumas poucas coisas pra fazer. Vou postar o do dia 11, domingo, que foi o que escrevi no próprio dia. Logo mais, fotos do visual das montanhas e, se eu tiver paciência pra digitar, os outros dias que tive tempo de escrever.

Vamos ao texto!

*

Acordei duas vezes. A primeira foi às 10:30. Tateei pelos óculos, procurei meu relógio. Vi que já tinha perdido a hora pro café, então virei pro lado e dormi até 12:35. Minha mãe veio nos chamar pro almoço e organizar um pouco da bagunça acumulada por mim e pelo Sami (roupas e sapatos espalhados por todos os cantos).

Fomos para o refeitório eu, meu irmão e meu pai. Por um milagre a Dé ainda estava dormindo e minha mãe precisou ficar com ela. Almocei rápido para que minha mãe pudesse comer, passei no quarto pra escovar os dentes e apanhar Budapeste. Meu irmão já estava no quarto dos meus pais instalando o notebook e lutando com a internet móvel. Minha irmã logo acordou e foi almoçar com mamãe.

Me acomodei na cama e comecei o livro. Li até meu pai chegar e religar a TV (que no domingo tem aquela programação booooa). Logo minha mãe e a Dé voltaram e assistimos juntos o americanóide dublado "A lenda do tesouro perdido". Praticamente duas horas de inércia da família toda na frente da telinha. Terminado o filme, fui pro meu quarto retomar a leitura.

A história de José Costa me prendeu totalmente e terminei o livro antes da hora do jantar. Entre um capítulo e outro arranhava o violão, dava uma volta no quarto. Durante essas pausas, comecei a reparar na estranha coincidência das minhas leituras solitárias: tanto Ishmael quanto Amaro quanto Kósta , personagens cujos finais eram os que mais me interessavam nos livros, eram figuras muito sós. Depois desse devaneio, abri mais uma latinha de Coca que se somaria às outras duas vazias no criado-mudo.

Depois de ler a última página me arrumei e fui para o 154 encontrar meus irmãos para jantar. No refeitório nos encaminhamos para a nossa nova mesa (o hotel estava tão vazio que mudaram as mesas todas para uma única área do restaurante). Depois do jantar, espiei a programação de lazer pra ver se, por um milagre, haveria algo pra se fazer: nada, de novo. Voltei pro quarto pensando no que fazer pra aliviar o tédio bucólico que me deixava com mais e mais vontade de voltar pra casa.